>>>>>> V
I D E em 1940 <<<<<<
A
Lenda que deu origem ao nome "VIDE"
NÃO TE
FIES
Conta-se que sendo esta terra um casal sem nome,
nas margens da ribeira que vem do mais alto da Estrela, para aqui vinham
bandos de cotovias, chilreando, alegres, mas sem se fixarem todo o ano.
Seus trinos requebrados e melodiosos eram o encanto da paisagem, porém,
depois dum pequeno período de tempo, partiam rápidas para
novo lugar. Até as outras avezinhas, nesses dias de calor sufocante
que faz arder os montes, as choravam com pios tristes. As plantas todas
as manhãs acordavam, deixando a relva cobertas de lágrimas,
o próprio sol caía acobreado sobre a terra orvalhada. Tornava-se
necessário segurar todo o ano tão engraçados passarinhos.
Estava-se no tempo em que as plantas falavam e então todas se entregaram
a uma grande conspiração, conversando sobre a maneira de
aprisionar as irrequietas aves. Pediram-se opiniões naquela silenciosa
assembleia, por que a fala das árvores não é ouvida
pelos homens, embora a entendam, a compreendam, lendo-a no livro aberto
da natureza. Uma planta viscosa disse: - Segrego das minhas entranhas resina
e prendo-as, quando sobre mim estiverem descansando. Logo a hera lhe respondeu:
- Isso não. É muito mais fácil dete-las com os meus
inúmeros braços, com os quais me agarro aos e as seguro.
- Crueldade desnecessária é essa que quereis empregar - disse
um medronheiro. Tu, viscosa planta, porque magoarias as avezinhas, e tu
hera, porque os teus braços são curtos e ásperos.
- Eu todos os dias atordoarei o bando, facilmente o embriagarei com os
meus rosados frutos. - Tolice, murmurou a buliçosa videira. Tenho
frutos lindos e dourados, negros como meninas de olhos de noivas, sedutores
e saborosos, esperarei que poisem, que se saciem e com as minhas companheiras,
quando dormirem, lançar-lhe-emos os nossos braços, enroscá-las-emos
nas patitas e prendemos todas as que poisarem e só as soltaremos
quando prometerem ficar entre nós. A encosta era cheia de vinhas
e todas as videiras das ramadas e latadas aprovaram, as próprias
oliveiras, cheias de frutos verdes e negros, que viviam pelo meio delas
e mais altas, abrigando-as, aplaudiram também. Numa madrugada destas
que descem do Culcurinho a limpar o Céu, apareceu brandamente o
Sol a despertar a vida dos sonhos e dos pesadelos, quando o bando, aos
gritinhos, aos trinados, cabriolando, subiu e desceu vertiginosamente.
Todas as plantas lhe ofereciam os seus serviços e uma a uma foram
pousando. Desagarrava-se a hera do muro e logo a avezinha, que acudira
ao seu chamamento, partia assuntada, porque a parede desamparada tombou.
Então o medronheiro acolhedor deitou-lhe os róseos frutos,
mas ali os deixaram, receosas de uma cilada. Isto aconteceu durante dias,
mas o bando estava desconfiado. Até que chegou o dia da partida
e lá foram. Só uma a mais velha do bando, é que contemplou
os bagos dourados de uma videira, aproximou-se, subiu, comeu deliciada
e adormeceu sobre a mais forte vara. Um braço de VIDE enrolou-se-lhe
na patita e ao acordar, a ave de linda plumagem era cativa. - Traição,
gritava, e começou a debater-se angustiada, procurando libertar-se,
mas a VIDE mais a prendia. Cansada de puxar, caiu como morta, olhitos cerrados,
asas abertas. Vieram as outras refrescar-lhe a cabecinha elegante, porem
não voltou a si e o braço de VIDE foi-se distendendo, deslaçando,
para docemente a depositar na fofa ervagem que crescera à sombra
da Videira e como tudo era fingimento, logo que se viu livre da algema,
voou rápida e era interessante vela subir, descer, quase até
roçar as videiras, gritando, - NÃO ME FIO NA VIDE. Partiu
à procura das amigas que a esperavam e trouxe-as, prevenindo-as
da traição. - NÃO SE FIEM NA VIDE. E porque o ambiente
era cheio destes sons, quando o casal se transformou em povoação,
ficou com este nome: V I D E. Esta lenda é fruto da inesgotável
veia popular, criadora deste interessante "Maravilhoso", que
tirou da sugestão e encanto da paisagem.
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